NOSSAS CIDADES, NOSSOS CEMITÉRIOS - SOBRE O NOVO LIVRO DE ALFREDO GUIMARÃES GARCIA
“Andar, andar - memórias do nunca mais” (Belém, 2018), de Alfredo Guimarães Garcia, é um livro de capa ruim. Mas, como diz o adágio segundo o qual não se deve julgar um livro pela capa, o texto vai num sentido completamente oposto. O enredo é simples e clássico: o do herói que retorna. A narrativa, porém, é, evidentemente, moderna: o retorno do herói, que fala de si próprio, não será à plenitude intacta deixada [“Não são mais os mesmos, nunca mais seremos os mesmos!” (75)]. O leitor, que, desde a modernidade, conforme constatação de Benjamin, resta completamente despossuído de sentido, daí sua voracidade por significados, não demora a ter um encontro consigo enquanto acompanha Miguel, o personagem, no retorno deste à cidade de sua infância. Viagem, aliás, a propósito da referência benjaminiana, impulsionado por uma perda, à qual, nesse trajeto, outras se vêm acrescentar. O auto-encontro do leitor, então, ao seguir os fios dessas perdas, se dá, pois, pela identificação com o personagem: o destino de Miguel, então com sessenta e dois anos, revela-se como o próprio destino do leitor, ou como promessa de sê-lo. Semelhanças plausíveis. Trata-se, portanto, como sói à “experiência” moderna, de uma “experiência” de esvaziamento, da qual, se algo pode ser retido, este algo é justamente a consciência da perda, aqui tematizada como “memórias do nunca mais”. Evidentemente, para que isto funcione a contento, isto é, para que gere “satisfatório” efeito no leitor, Garcia faz valer sua longa intimidade com a técnica narrativa, com suas estratégias de contador de histórias, de simulador de situações, e conduz o leitor pela geografia da cidade interiorana em cuja atualidade o personagem, a se dar conta, seja das inovações constatadas, seja do que, não obstante certos efeitos danosos do tempo, ainda permanece, embora sob ameaça [“Onde antes havia uma mureta com cobogós, hoje há uma ruína do que foi aquele espaço… O que virá para substituir aquelas paredes de alvenaria que serão postas abaixo?” (73)], tem o mote para evocar o passado perdido: aventuras infantis, amorosas, relações de vizinhança e amizades, dentre estas, uma especial, cujo desvelamento parece sugerir certa ambiguidade afetiva, e cuja perda, ocasionada pela morte do amigo, é, pois, o que dá ensejo ao retorno de Miguel à cidade e, nesta, à deliberada e longa caminhada por sua geografia entrecortada de afetos [“...mundo de rememorações que vão surgindo, passo a passo...” (61)], antes de, finalmente, chegar ao destino, a casa do amigo talvez doente terminal, mas logo morto, onde, seja pela exaustão do passeio e respectivas emoções, seja pela emoção específica da chegada ao epicentro da perda especial, tem curioso desmaio. “Andar, andar - memórias do nunca mais” fará lembrar - por algo do enredo, pelo tratamento das memórias afetivas, pelo caminhar entre ruas da infância e das amizades agora distantes - do inesquecível “Cinema Paradiso” (1988), filme de Giuseppe Tornatore. Assim como o filme, “Andar, andar…” tem ares de auto-ficção, posto que o autor, ao conduzir Miguel e o leitor pelas ruas da cidade interiorana, mas agora de trânsito intenso, retrata a cidade onde ele próprio morou na infância - cidade onde há um pároco chamado “Frei Hermes”, uma fábrica de cimento, uma rua de nome “Duque de Caxias”, na qual fica o cemitério, este não distante do “colégio das freiras”, próximo ao bairro “Garrafão” e de uma escultura em forma de sorvete; onde, ainda, consta uma rua chamada “Baltazar de Queirós”, localizada perto de certo ginásio e de um posto de saúde: a cidade de Capanema, no nordeste do estado, “na qual”, coincidentemente, também passou dias da infância, na geração seguinte à de Garcia, o leitor que agora escreve esta crítica, e que ali também sepulta um passado e alguns amigos queridos. Mas quem não os tem em algum lugar? - realidade que, bem explorada e bem simulada por Garcia, confere ao texto saborosa, embora melancólica, fruição estética. A simulação do texto, que em dados momentos também recorre à lógica dos sonhos, é, pois, boa recompensa a quem, de posse do adágio referido, decidir tirar por menos a péssima simulação do photoshop na capa e ultrapassá-la.
