O TEMPO NÃO FLUI: FLUEM OS ENTES NO TEMPO
[sobre "Gaiolas e pássaros" (2013), de José Aremilton]
O cotidiano é uma armadilha circular
disfarçada de presente. Este, simulacro de tempo nos olhos a cobrir coisas,
ações, relações, existências... e encobrir, na suposta duração, a verdadeira
natureza de tudo que é cotidiano: o fluxo, a temporalidade, o abismo apenas disfarçado
de círculo, imagem do eterno, imutável, necessário – em verdade, espiralado:
buraco-negro a sugar toda a seiva do existente em redor. A farsa do cotidiano
está em sugerir que o presente é como é e tem que ser assim. Sempre. Sempre é o
tempo, não as coisas, a forma das ações, relações, existências... Que passam,
embora desapercebidamente. Ao que passa dá-se o nome de temporal. Temporalidade
é o fluir das coisas, relações, existências... Que jamais cessam. Em fluir está
a razão de ser das coisas e do existente. O tempo mesmo não flui. Não existe. Fluem
os entes no tempo. Quanto a isto, ou se é já clarividente desde o início, ou se
aprende a sê-lo ao longo do existir. Aprender a sê-lo implica susto. Implica,
literalmente, ver o fantasma, o simulacro. Assustar-se pode ter o efeito de uma
bomba lançada no cotidiano, a desmascará-lo, explodi-lo, a mandá-lo pelos ares,
e assim, haver-se face a face com o abismo em espiral. Ou não. Há quem prefira
o fantasma mesmo depois de sabê-lo tal. Para estes, dispor do simulacro é
melhor que dispor de Nada... Assustar-se, neste caso, leva à estranha
resignação com que vemos alguns personagens de “Gaiolas e Pássaros”, bela metáfora
com que, regado em sutileza, nos fala de situações.
Isto é, experiências de seus personagens com o cotidiano – aquela armadilha a
que o autor - José Aremilton de Oliveira, que arrebatou o Prêmio IAP de
Artes Literárias, edição 2012 - aqui, opção estética, literária, poética, vem denominar
gaiola, e, assim preparar, pelo antagonismo, o tema fundamental da escolha
sempre subjacente às decisões humanas: explodir ou não explodir a bomba?, eis a
questão! Liberdade, quando não mais, é o decidir dar à existência, coisas,
relações, novos significados. É posicionar-se frente ao Destino: o abismo
espiralado, ou deixar-se conduzir por seu simulacro: a gaiola disfarçada de sempre-presente.
“Espíritos livres” é como José Aremilton de Oliveira nomeia os pássaros que ousaram
deixar a gaiola - ou os clarividentes que nunca entraram nela. Nos dez contos
que formam “Gaiolas e Pássaros” os três tipos de pássaros são encontrados. Qual
deles serás, leitor?
